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Artigo Técnico

21 de Outubro de 2002

 

Mas afinal, o que é crédito?

 

Por Alexsandro Rebello Bonatto*

Acompanhando o debate político desta temporada eleitoral, uma palavra tornou-se recorrente na maioria dos discursos dos "presidenciáveis" como a solução de boa parte dos problemas brasileiros: crédito. Alguns chegaram a dizer que o país precisa de um choque de crédito.

Realmente, o crédito quando bem concedido tem o poder de vitalizar uma economia, estimulando seu crescimento e desenvolvimento. Mas se tal ferramenta existe, por que não está sendo utilizada a fim de facilitar a produção e o consumo no Brasil.

O objetivo deste artigo é tentar iluminar um pouco essa questão. Mas, afinal o que é crédito?

Classicamente a idéia de crédito indica credibilidade, confiança depositada em alguém quanto ao cumprimento de suas obrigações. Através dessa confiança cria-se uma expectativa de que ao efetuar um empréstimo no presente o mesmo será quitado no futuro, acrescido de uma "taxa" pela prestação desse serviço.

Esta "taxa" a ser cobrada embutirá o risco (ou a probabilidade) de que o devedor opte por não arcar com seu compromisso futuro, o que obviamente acarretaria prejuízo ao credor.

O crédito pode ser dividido em duas vertentes:

  • crédito comercial, onde o objeto do empréstimo é um bem ou produto qualquer e seu repagamento se dá sob a forma de moeda. O crédito comercial facilita a troca de produtos e serviços entre os agentes, pois não exige pagamento imediato.

  • crédito financeiro, onde uma quantia é alugada pelo devedor ao credor mediante a promessa de seu retorno numa data previamente acordada entre as partes. A função do crédito financeiro é fornecer um elo entre agentes superavitários e deficitários visando uma alocação ótima dos recursos.

Percebe-se que o crédito na economia tem um papel fundamental, pois permite o diferimento de uma operação, ou seja, o bem é adquirido hoje, no entanto seu pagamento se dará amanhã. Sendo assim, o crédito contorna a restrição orçamentária de uma firma possibilitando que compras de matéria-prima sejam efetuadas mesmo que não existam recursos disponíveis no momento do pedido.

A partir desse "mecanismo" é possível que os agentes acelerem seus fluxos de produção e comercialização permitindo uma alavancagem dos retornos obtidos. O acesso ao crédito possibilita a uma firma vislumbrar um crescimento superior ao que seria atingido via recursos próprios disponíveis.

No entanto, para que o mercado de crédito encontre seu equilíbrio é necessário que as partes envolvidas (credores e devedores) cumpram os compromissos firmados, evitando possíveis prejuízos a qualquer uma das partes. Sendo assim, busca-se através da proteção contratual um incentivo para que tanto credores e principalmente devedores não "se desviem" dos rumos previamente traçados.

O instrumento da proteção contratual equaliza as forcas de atuação do devedor e do credor na tentativa de regular suas ações futuras. Ela é especialmente atuante no lado do devedor, pois este sempre dispõe da prerrogativa de optar por não liquidar a dívida; enquanto ao credor não existe a possibilidade de reaver à força o montante já liberado. A informação sobre a intenção ou não de honrar o compromisso assumido é detida apenas pelo devedor, ao credor resta a confiança de que será reembolsado no vencimento da operação.

A existência da figura do free-rider (aquele que busca ganhos adicionais através do descumprimento dos contratos) faz com que o ato de emprestar esteja carregado de incertezas (inexistência de probabilidade confiável) quanto ao efetivo recebimento, o que diminui o fluxo de crédito disponível na economia.

Num ambiente de seleção adversa, o credor se ressente da falta de informações disponíveis para definir quem são e quem não são os devedores dignos de confiança.

Essa é a principal dificuldade na busca da otimização do mercado de crédito: a assimetria de informações entre os agentes envolvidos, cabendo ao processo criterioso de análise de crédito estimar se existe ou não a intenção de pagar do devedor.

Voltando ao caso brasileiro, em nosso país a concessão de crédito ainda é uma matéria relativamente nova o que impede o desenvolvimento de uma cultura de emprestar baseado em informações sólidas sobre o credor. Contudo percebe-se que certos setores da sociedade (principalmente os bancos) já estão em processo bastante adiantado no que se refere aos processos de análise de crédito, sinalizando incremento no papel que esta importante ferramenta desempenha na economia.


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Alexsandro Rebello Bonatto* é economista e analista de balanço de instituição financeira.

Email: abonattp@yahoo.com.br

 

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